O Jasper é um “cão-salsicha” (Dachshund)
que perdeu o uso das suas patas posteriores há quatro anos. Agora, a
seguir a um tratamento a que foi submetido por Robin Franklin, da
Universidade de Cambridge, e colegas, Jasper está “sempre a correr pela
casa fora”, diz a sua dona, citada no site do Huffington Post United Kingdom.
Os resultados da equipa britânica, que dizem respeito a
Jasper e
mais 33 cães de estimação que ficaram paralisados na sequência de
atropelamentos ou de problemas de costas, foram publicados na revista
Brain e
constituem a primeira demonstração de que é possível reparar lesões da
medula espinal em casos “da vida real”, salientam os cientistas. A maior
parte dos cães era raça Dachshund (ou Teckel), que tem propensão a
sofrer de problemas da coluna vertebral que se revelam altamente
incapacitantes.
O que os cientistas fizeram foi colher certas
células da própria mucosa nasal dos cães para realizar um
autotransplante – em inglês, são chamadas
olfactive ensheathing cells,
ou OEC. As OEC não são neurónios, mas células gliais, ou seja, células
nervosas que têm em particular como função a sustentação dos tecidos
nervosos.
Essas células foram cultivadas no laboratório antes de
serem injectadas, no local da lesão, em cerca de dois terços dos
animais, enquanto os outros recebiam apenas uma injecção de um líquido
neutro.
Como o sistema olfactivo é a única parte do organismo dos
mamíferos onde as fibras nervosas continuam a crescer ao longo de toda a
vida – e como as OEC são justamente as células nervosas que promovem
esse crescimento –, os especialistas suspeitavam há anos, com base em
estudos anteriores, de que um transplante destas células ao nível de uma
lesão espinal poderia permitir a reconstituir as ligações nervosas que
tinham sido seccionadas por um traumatismo. Sabia-se também que um tal
procedimento não apresentava riscos para o ser humano, mas a sua
eficácia nunca fora testada – e ainda menos comprovada.
Foi isso
que agora parece ter finalmente acontecido – no cão. “Os nossos
resultados são extremamente excitantes porque mostram, pela primeira
vez, que o transplante deste tipo de células para dentro de uma lesão
grave da espinal medula pode acarretar uma melhoria significativa”, diz
Franklin, citado pela imprensa britânica. E, de facto, isso aconteceu
aos cães que tinham recebido as suas próprias células olfactivas, mas
não aos que tinham apenas sido tratados com o líquido.
Os animais
foram testados, de mês a mês, do ponto de vista da sua função
neurológica e do seu desempenho numa passadeira. E os cientistas puderam
observar que os animais tratados com as células nasais conseguiam mexer
as patas até aí paralisadas, coordenando o movimento de conjunto graças
às patas dianteiras. Porém, também constataram que, ao contrário do que
acontece naturalmente no nariz, onde a regeneração nervosa promovida
pelas OEC consegue manter a comunicação entre o sistema olfactivo e o
cérebro (condição
sine qua non para a preservação do sentido do olfato), ao nível da espinal medula as ligações nervosas regeneradas eram de curto alcance.
Daí que os cientistas permaneçam muito prudentes
quanto à eventual aplicação da técnica aos seres humanos. “Pensamos que
a técnica poderia restaurar o movimento pelo menos de forma limitada em
doentes humanos com lesões da espinal medula”, acrescenta Franklin,
“mas estamos muito longe de poder dizer que esses doentes poderiam vir a
recuperar todas as funções perdidas.” Acontece que, juntamente com a
perda de mobilidade, estas lesões acarretam também perda da função
sexual e do controlo dos esfíncteres. Ora, na actual experiência, embora
alguns cães tenham recuperado o controlo da bexiga e dos intestinos, o
seu número não foi significativo.Isso não impede Geoffrey Raisman, do
University College de Londres e descobridor das OEC, de afirmar que se
trata “do mais alentador avanço em anos”.